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UM OUTRO PIB É POSSÍVEL por Marina Silva*

Link Permanente  Postado por Redação Sustenta! em 10 novembro 2008 - 12:09

   Cresce o número de pessoas e instituições que reconhecem a manutenção do equilíbrio ambiental como condição intrínseca  ao  crescimento material. Mas muitos ainda acham que crescimento e preservação ambiental têm que caminhar em sentidos opostos, um falso dilema que reduz nossos horizontes.
   Já vivemos antes situações parecidas. Diziam não ser possível aliar crescimento e distribuição de renda, com base no argumento equivocado de que primeiro é preciso crescer para depois distribuir, como  se fossem momentos estanques. Pois bem, o Brasil parece ter entrado, desde 2004, numa rota positiva de crescimento econômico com estabilidade monetária e distribuição de renda. Nas últimas semanas foram divulgadas duas informações importantes: o PIB do primeiro semestre cresceu 6% e 13,8 milhões de pessoas melhoraram de estrato social entre 2001 e 2007, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2007). Com isso, a economia cresce e a concentração de renda vem diminuindo de forma contínua neste século.
   O que nem sempre percebemos é que dependemos dos recursos naturais para o bom desempenho da economia. Nossa matriz energética é composta por 45% de fontes renováveis. Cerca de um terço da economia brasileira depende diretamente de serviços ambientais, como regulação do clima, manutenção do regime de chuvas, existência de terra agricultável e acesso à diversidade biológica.
   Contrapor crescimento econômico à preservação dos ativos ambientais é desconsiderar um fator fundamental de sustentação da nossa competitividade no cenário internacional a longo prazo. Os desafios da crise ambiental global, sobretudo para países em desenvolvimento, não poderão ser enfrentados à base da carbonização maximizada. Portanto, outros parâmetros de crescimento deverão qualificar o processo, por meio de critérios sociais e ambientais combinados.
Recentemente, pesquisadores da USP compararam os recursos naturais de sete países – Brasil, Rússia, Índia, China, Estados Unidos, Alemanha e Japão – e suas emissões e capturas de gases de efeito estufa até 2050, concluindo que Brasil e Rússia são os únicos que poderão ter balanço positivo entre crescimento econômico e preservação de seus recursos.
   Além disso, diante do cenário de aceleração das mudanças climáticas, não podemos mais ter o PIB como único indicador de desenvolvimento. Segundo o professor José Eli da Veiga, o PIB traz uma simplificação perigosa: se subir, acredita-se que está tudo bem, se cair é sinal de que algo vai mal. Em alguns casos, ele alerta, um país que registra crescimento do PIB pode estar diminuindo sua riqueza.
   Por isso a ONU vem recomendando há alguns anos que cada país considere adequadamente os custos e os ativos ambientais no cálculo do seu PIB. Só assim saberemos, daqui a alguns anos, se estamos consumindo desnecessariamente nossa principal riqueza, os recursos naturais, ou se estamos conseguindo melhorar a qualidade de vida da geração atual, sem prejudicar as próximas.
   Se queremos crescimento real, ambientalmente sustentável e socialmente justo, é preciso, entre outras coisas, reinventar o PIB.

*A senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, é uma pioneira, no Brasil, na defesa da idéia de sustentabilidade associada a desenvolvimento social e colunista de Sustenta!